sábado, 17 de março de 2012

SETE - Parte 9 - JOSHUA, Tony e Druída


Eu devo ter praticamente invadido a casa um.


- Você sabia disso! Como você pode fazer isso comigo?

- Você está na minha casa, escrava. Veja como fala.

- Eu confiei em você, JOSHUA. Você não podia ter escondido isso de mim!

Tony, que estava na clareira com uma nova escrava, ouviu a gritaria e seguiu para a casa um.

- JOSHUA, está tudo bem? Precisa que eu escolte a princesa de volta pra casa do Romeozinho?

- Não Tony. Armand está aqui. Está tudo sob controle. Scarlet está tendo um pequeno problema em absorver algumas informações sobre o Druída.

Tony imediatamente assumiu uma certa moderação em seu tom de voz.

- Então ela sabe?



JOSHUA sinalizou que sim.



- Deve ser um pouco complicado pra você compreender, princesa. Seu pai é um Dominador muito respeitado por todos nós. E um grande amigo. Eu e o JOSHUA o conhecemos há muitos anos. Muito antes disso aqui existir. Ele foi parte da idealização desse lugar. Tudo que aqui foi construído carrega muito das idéias dele. O Druída é uma das pessoas mais inteligentes e mais teimosas que eu conheci. Você se parece muito com ele.



Eu não consegui sorrir.



- JOSHUA, você me deve uma explicação – exigi.



Armand, que assistia a tudo, calmamente sentado no sofá, levantou-se e caminhou em minha direção.



- Scarlet, eu não sei como você descobriu. De qualquer forma, você não ficou simplesmente me esperando, como eu mandei que ficasse. Você entrou na casa de um TOP, transgredindo minha ordem, gritando e exigindo explicações.



Eu o olhei, assustada. Armand passou a mão pelo meu rosto e me beijou demoradamente. Depois, quando eu menos esperava por isso, agarrou meus cabelos e me puxou pra baixo, obrigando-me a permanecer ajoelhada, com o rosto praticamente encostado no tapete. Eu senti a sola do seu coturno em minha face. Olhei pra cima, furiosa, e notei a expressão de Armand, gloriosa, refletindo seu poder. Eu queria odiá-lo. Eu estava frágil. Eu precisava de um abraço do homem. Ao invés disso, quem ali interagia comigo era o Dominador. E ele fazia questão de expressar seu poder sobre mim de forma até mesmo simbólica. Eu entendi que lhe era extremamente importante que eu olhasse de uma posição mais baixa. Não havia como eu descer mais do que aquilo. A distancia hierárquica entre nós estava muito bem marcada. O conforto de que eu necessitava, me havia sido negado. Eu era escrava. Ele soube fazer com que eu me sentisse exatamente assim, perante os membros mais importantes do grupo do qual eu era também faria parte. Eu queria sentir tanto ódio dele. Mas o amei por isso. O amei ainda muito mais do que antes.



- Você quer entregar sua coleira agora?

- Não, Senhor. Eu não quero.

- Beije os pés de JOHUA. E peça perdão.



Eu o fiz, sem pensar muito. Eu estava magoada e com milhões de duvidas a serem sanadas. Eu nem sabia mais se era minha vontade ser parte dos sete. Mas eu pertencia ao Armand. E eu tinha medo de que ele desistisse de mim.



- JOSHUA, minha escrava será punida pela desobediência a mim na próxima play.

- Sem problemas. Teremos tempo pra isso.

- Não é o tempo que me preocupa. Eu preciso que boa parte da Masmorra esteja revestida.

- Falarei com as meninas – disse JOSHUA.



Armand me puxou novamente pra cima e me apontou o sofá, para que eu me sentasse.



- Vou deixar você e JOSHUA conversarem.



Armand e Tony se retiraram. JOSHUA novamente me serviu algo pra beber. Então começou a longa explicação.



- Bom... o Frank... Eu o conheci em um campeonato de xadrez entre universitários. Eu já andava com o Tony na época. Eu cursava Direito e Tony era da engenharia. É lógico que Tony não tinha nenhum talento ou paciência pra xadrez, mas eu havia ficado entre os finalistas. Seu pai também. A universidade patrocinou nossa estada nos alojamentos pouco confortáveis de uma escola. Não demorou para que nos tornássemos inseparáveis. O Frank era inteligente o suficiente pra me parecer um amigo apropriado, e era divertido o suficiente pra que o Tony apreciasse sua presença. Seu pai era um dos alunos mais brilhantes do curso de Medicina. Brincávamos com o fato de que cada um de nós cobria uma área do conhecimento. Mas pra mim, isso não era coincidência. Era muito mais que isso.

- Equilíbrio – interrompi

- Sim. Equilíbrio. O Frank sempre fez muito bem o papel de diluir as diferenças entre eu e o Tony. Ele, como você, scarlet, conseguia acompanhar meu raciocínio em conversas abstratas intermináveis, e no momento seguinte, ter uma conversa leve e animada com o Tony, sobre musica ou filmes.

- Quem ganhou?

- O que?

- O campeonato. Eu duvido muito que alguém seja capaz de vencer meu pai no xadrez – eu desafiei.

- Está vendo aquele troféu ali no canto?



Eu nunca tinha reparado nele antes, mas ele estava ali.



-Sim.

- Eu levei o troféu aquele dia.

- Estranho – respondi.

- Realmente. Aconteceu algo inesperado. Eu venci meus adversários. Frank venceu os dele. E na final, erámos eu e ele, olhando para o tabuleiro. A situação era desconfortável. Já éramos melhores amigos. Seu pai sabia o quão importante era pra mim vencer aquele campeonato. Foi então que ele deitou seu rei, na frente de mais de mais de duzentos estudantes.

- Ele deitou o rei? Ele desistiu do jogo?

- Sim. Ele permitiu que eu ganhasse. Eu já tinha planos e sonhos de criar algo especial. Eu sabia que seu pai sempre havia sido um dominador em seus relacionamentos. Eu já o admirava. Quando ele fez isso, eu soube que ele faria parte do que quer que eu criasse. Ele permitiria a minha liderança. Não por ser intelectualmente inferior, mas por reconhecer que eu tenho mais interesse do que ele em administrar.

- E minha mãe? Ela sabe disso tudo?



JOSHUA sorriu.



- Sua mãe não apenas é submissa, mas também é uma treinadora de escravas. Várias vezes eu submeti até mesmo as minhas meninas para que ela as instruísse. O Ventríloquo também. A nina não é linda em sua postura? Ela foi aluna da melhor treinadora que tivemos, a gia.

- Gia... Gia quer dizer rainha. Isso é uma ironia?

- É mais um reconhecimento da dualidade do ser. Uma escrava pode ser gloriosa. As escravas daqui, tem orgulho de serem o que são.

- Gia... Rainha... É por isso que o Tony me chama de princesa?

JOSHUA riu

- Até que tudo isso faz um certo sentido... – constatei -  O comportamento dos dois sempre foi muito diferente do comportamento habitual dos casais. Mas eu nunca imaginei...  Meu pai tem outras escravas?

- Às vezes. Seu pai tornou-se hoje em dia um homem muito exigente. Quantidade não o move. Ele quer qualidade, excelência. Mas já teve muitas escravas, em outros tempos. Algumas delas entraram na sua vida, scarlet, como uma babá, ou uma amiga da família. Elas ficaram pouco tempo. Ele não se envolve emocionalmente com mais de uma garota. Ele sente carinho. Ele protege suas meninas. Mas ele ama uma delas, apenas. Gia. Acontece que são poucas as escravas puras, as mulheres que conseguem tirar tanto prazer de sua condição, que não precisam de uma vida comum também; um casamento, filhos, e o status de esposa. A maioria vive a escravidão em um momento da vida em que elas podem se dar ao luxo de faze-lo. Depois disso, suas outras necessidades vem à tona.



JOSHUA usou toda sua paciência e sabedoria pra me contar toda a história de uma forma leve e interessante. Ele manipulou minhas emoções pra que a satisfação da minha curiosidade fosse atenuante para o fato de eu me sentir tão machucada. Meu encontro com o JOSHUA, na internet não foi obra do destino. Meu pai, o Druída, percebeu que em mim havia a mesma essência dele e de minha mãe. Ele notava a minha solidão. Ele sabia que eu me sentia deprimida, por não encontrar meu lugar no mundo, e ele sabia, também, a que tipo de lugar eu pertencia. Da primeira conversa dele com JOSHUA sobre isso, até o dia que meu pai pediu que JOSHUA me tutorasse nessa descoberta, foram-se anos. O Druída precisou fazer a pazes com a constatação de que sua filha sentiria na pele os golpes do chicote. JOSHUA teve trabalho pra ensina-lo que, se ele acredita no BDSM, se ele opta por esse caminho e o abraça como algo que o faz bem, ele não devia permitir que seu próprio preconceito me impedisse de ser feliz. Era importante que eu encontrasse também o meu caminho.



Quando meu pai mudou-se para a Irlanda, a ideia era ele passar um pequeno período por lá, em pesquisa. Com o tempo, veio a noticia de que ele não mais voltaria a residir no Brasil. JOSHUA sabia que não haveria ninguém melhor para substitui-lo do que eu, seu próprio sangue. Mas algo estava no caminho. Nenhum membro dos Sete pode ser bottom. E eu me via apenas como escrava. JOSHUA testou outros candidatos, mas na verdade ele esperava que eu encontrasse o meu sadismo. Mistress Vera foi enviada por ele pra me ajudar nesse processo. Assim que eu abracei também minha essência de TOP, meu pai foi informado do desejo de JOSHUA, e consentiu que seu lugar fosse ocupado por mim.



Conversamos por horas. Todas as minhas perguntas foram respondidas. Faltava-me apenas saber por que o Druída não queria que o Armand fosse meu Dono.

O telefone de JOSHUA tocou enquanto falávamos nisso.



- Olá, Druída. Sim, eu sei. Não se preocupe. Estou tendo uma longa conversa com a scarlet. Ok. Ok. Quando? Sem problemas. Vou eu mesmo busca-lo no aeroporto.

Fui informada de que em dois dias o Druída estaria no Brasil.



- Mas e quanto ao Armand?

- Eu também não sei exatamente a que se deve essa resistência do Druída. Mas vou buscar entender.



Não havia mais nada a ser dito, e ainda, muitas duvidas povoavam minha mente. Eu me lembrei de cada lágrima que havia derramado no galpão. Era estranho que quem tivesse me enviado pra lá, pra que eu passasse por tudo isso, tivesse sido o Druída. Era difícil compreender como um pai podia ter sangue frio pra consentir que sua própria filha passasse por tanto sofrimento. Mas por mais difícil que fosse administrar essa verdade, no fundo eu sabia que ele o tinha feito porque suas convicções eram reais. Ele vivia o que acreditava, mas principalmente, acreditava no que vivia. E ele tinha a certeza de que eu seria mais feliz assim, em contato com minha essência e meus desejos, mesmo os mais sombrios.



O que realmente me perturbava era essa incoerência! Quando eu finalmente me encontrei nas mãos do homem a quem eu servia e amava, quando eu finalmente pude compreender quem eu era e encontrei prazer na posição a mim oferecida, ele, o grande responsável por me fazer chegar a tal ponto, era o único a se colocar entre mim e a realização plena de meus desejos.



Mas Armand havia preparado uma surpresa que me fez esquecer essas preocupações. Quando eu voltei para a casa 6, ele não estava só. Miss Catsy e sua bela escrava, naya, estavam lá.

Naya sorriu e sussurrou pra mim:



- Feliz que tudo tenha dado certo! É bom te ver feliz.. e com o Monsieur Armand...



Era impossível não sorrir vendo a alegria da garota que já havia até chorado por me ver tão mal. Naya era querida por mim.



- Que acha de colocarmos as meninas pra brincar, Armand? – Disse Miss Catsy

- É uma ideia... eu adoraria ver minha escrava em ação...



Eu sorri e disse:



- Se o Senhor me emprestar um chicote, eu adorarei ver a expressão de dor da naya...



Miss Catsy riu



- Menina, acho que não é isso que seu Senhor quer ver. Naya, explica pra scarlet...

Naya andou até mim. A garota usava um robby preto, rendado, amarrado na frente. Ela gentilmente puxou um dos fios e deixou que a única peça de roupa que cobria seu corpo fosse ao chão. Eu não sabia o que fazer.



Armand andou até mim e deixou que seu peito tocasse minhas costas... seus lábios colados em meu ouvido se moviam, e eu sentia o ar quente de sua respiração na minha nuca.



-Scarlet... se deixa levar... a Naya é uma mulher muito bela, não é?

- Sim, Senhor. Muito.



Armand abriu o zíper da minha roupa e naya delicadamente tirou de mim o vestido que me cobria. Eu suspirei de desejo e de curiosidade. Naya tocou de leve o interior de minhas coxas e eu novamente suspirei, e dessa vez era clara a minha excitação. Por alguns minutos ela acariciava meu corpo e observava minhas reações. Depois, quando ela já tinha todas as informações de que precisava, me beijou com desejo e intensidade. Eu também a toquei. Eu queria sentir seu corpo, sua pele... Não houve mais necessidade de qualquer instrução. Eu me joguei sobre ela no tapete da sala de Armand. Eu a senti molhada nas minhas mãos. A penetrei e apreciei seus gemidos de prazer. Ela movia o corpo contra mim, pra que eu a penetrasse mais fundo... Ela dançava enquanto eu a sentia por dentro, quente, macia, apertando meus dedos em leves contrações. Eu queria muito mais. Eu queria ir até o fim. Eu beijei seus seios e apertei os mamilos com meus lábios. E os passei pelo seu corpo até chegar em sua coxa...Eu queria mergulhar minha língua em seu sexo e sentir seu gosto, mas Armand me segurou...



- Ainda não – e olhou para Miss Catsy, que com um movimento discreto, ofereceu a ele sua escrava.



Ele então despiu-se e deitou-se sobre ela, a possuindo com rapidez e violência. Naya fechou os olhos de dor. 



Miss Catsy me acomodou em um cavalete e saiu por uns instantes. Retornou sem seu vestido, mas ainda usando sua bela lingerie. Vestiu seu “strap on” e não fez qualquer pergunta... Apenas o forçou em meu sexo até que ele estivesse completamente dentro de mim. Ela movia-se com um vigor quase cruel, e eu, aos poucos ia deixando que o prazer tomasse conta de mim... Miss Catsy me ouviu gritar quando eu gozei e eu ouvi seu riso de satisfação.



Armand abandonou Naya no chão e me puxou...



- Agora sim... eu quero que você sinta meu gosto nela...



E eu, tremula, mas com a rapidez de quem cumpre uma ordem deliciosa, deixei que minha língua explorasse cada milímetro do sexo de naya. Eu a lambia e sugava, buscando encontrar meu jeito de faze-lo. Ela gemia com vontade e isso me excitava ainda mais. Armand me penetrou por traz enquanto eu me divertia explorando o corpo de naya. E um gozo ainda maior tomou conta de mim.



- Continua... enquanto eu te uso – ordenou Armand



E o gozo deles foi praticamente simultâneo. Eu fechei os olhos e senti a plenitude do momento. Eu havia sido o objeto de prazer de naya e Armand, ao mesmo tempo. E essa experiência foi simplesmente incrível... Eu já havia imaginado que um dia algo assim iria acontecer. Eu estava aberta para o novo. Mas em nenhuma de minhas fantasias isso havia sido tão extasiante quanto foi na realidade.



Miss Catsy e naya logo se recolheram para a casa 4. Armand agradeceu a visita das duas.

Eu estava bem e muito cansada. Deitei-me na cama de Armand.



- O que você está fazendo?

- Me deitando, Senhor... Eu estou morrendo de sono...

- Não... Aí não...



Armand me puxou e algemou meu pulso em um gancho aos pés da cama. Eu sorri. Apesar do desconforto que era deitar-me ao chão, eu, ali, me sentia totalmente dele. É lógico que eu seria dele também se estivesse deitada em sua cama macia... É lógico que eu seria escrava, ainda que ele me abraçasse a noite toda. Mas só uma mulher que sabe o que é passar uma noite inteira aos pés de seu Dono compreende que o poder é muito mais forte quando é exercido, nem que seja pra provar sua existência. É importante viver o fetiche, e não apenas dar uma permissão teórica para que ele possa vir a um dia acontecer. Armand fazia uso de seu poder. E isso me tornava cada vez mais consciente de que eu o pertencia... E foi sentindo isso que eu quase adormeci...



- Scarlet?

- Sim, Senhor.

- Você sabe que essa noite não muda nada... Você ainda será punida por ter invadido a casa de JOSHUA, não sabe?

- Sim, Senhor. Eu sei.  – respondi – não vejo a hora de ter tuas marcas em mim.

- Então prepare-se. É obvio que uma punição não pode ser algo que te de prazer. Não se preocupe. Eu saberei fazer com que você se arrependa do que fez. Boa noite, minha scarlet.



O sono me abandonou. E eu levei algumas horas até finalmente adormecer.

(continua...)



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SETE - Parte 8 - Duas Peças



 Foi bem diferente esse segundo despertar na casa seis. Meu corpo estava novamente dolorido e coberto pelas marcas que ele havia deixado em mim. Mas eu sabia quem eu era. E ele estava do meu lado.

Saí da cama com cuidado para não acordá-lo. Abri as janelas com vista para o centro do círculo formado pelas sete casas. Era a primeira vez que eu observava tão atentamente o que estava por cima do galpão. Andei até a clareira. Fiquei em pé, exatamente onde eu calculava que devia ficar o X.

- É um pouco mais à direita – eu ouvi

Virei-me assustada. JOSHUA caminhava em minha direção.

Sorri para ele, de uma forma mais livre, mais honesta, talvez. Eu me sentia realmente feliz.

- Espero que não seja um problema eu estar aqui.

- De jeito nenhum. Eu te disse que você seria sempre bem-vinda.

Ele sorria também. Com uma satisfação difícil de compreender.

- Vejo que Armand tem cuidado muito bem de você – ele disse, observando os cortes nos meus braços.

- Muito bem – respondi – Ele tem talento.

- Sim, não resta dúvida. Armand é um Sádico talentoso. Mas você... Todas as apostas apontam para você.

- Apostas?

- Sim. Eu imagino que a essa altura você já tenha uma boa noção da proposta que eu vou te fazer.

- Sim. Eu entendo agora. E tudo começa a fazer sentido. Coisas que antes eu ouvia... Mas não conseguia encaixar. Me faltava uma peça no quebra cabeças.

- Não, meu bem. Faltavam duas. Uma você encontrou quando submeteu o trovador com seu sadismo. A outra você ainda não faz nem ideia do que seja.

- Mas eu sei, JOSHUA. Sei de tudo. Sei o que quer de mim.

- Scarlet, eu nunca te vi como minha escrava. Sempre te olhei como uma possível parceira. Eu pude verificar que você tem o que acrescentar aos Sete. Você é a constatação personificada de que uma masoquista pode ser também uma excelente Dominanora. Eu pude te ensinar várias formas, técnicas, e conceitos. Alguns deles você aprendeu na prática. Outros por simples observação. A sua existência ensina muito aos outros membros do grupo. Além disso, eu sei da tua confiança em mim. Eu acredito que você, bem instruída, tem melhores condições de manter meus ideais do que qualquer outro candidato.

- Acha que eu estou pronta? – perguntei.

- Não. Ainda não. Mas o que te falta, te será ensinado. Lembra-se de quando você fez a escolha de comandar a cena entre o Tony e a angel, pela internet, ao invés de vir me servir?

- Lembro.

- Desde então eu estava convencido de que você carregava as duas vertentes do BDSM em você. Mas você só soube disso, de fato, na noite passada. Como TOP, você ainda está engatinhando. Em circunstâncias normais eu te treinaria longamente antes de fazer qualquer proposta. Eu não gosto de atropelar os momentos de descoberta. Mas o fato é que o Druída não deve retornar, a não ser para uma festa de despedida. E é importante que o grupo esteja completo.

Eu sorri

- Sim, eu entendo... Sei da sua preocupação com os números...

- Números não são só números. São agentes do equilíbrio. Eu não vou pregar minhas crenças que excedem o BDSM pra você. Eu sei que você acha tudo isso bobagem.

- Hey! Eu não sou cética. Apenas tenho minhas próprias crenças.

- Não foi uma crítica, Scarlet. Eu gosto da forma como você pensa. E acho que ela também é um agente de equilíbrio por aqui. Você, exatamente como é, se encaixa perfeitamente.

Ouví passos. Armand se aproximava. Ele passou seu braço esquerdo pela minha cintura e me beijou.

- Olá, JOSHUA.

- Bom dia, Armand. Eu estava justamente dizendo à sua garota o quanto eu gostaria de tê-la como membro dos Sete.

Armand sorriu. Era óbvio que o convite o havia agradado.

- Eu acho fantástico. Mas essa escolha tem que ser somente dela. Enquanto livre. O que ela decidir, terá minha aprovação.

- Bem – disse JOSHUA - Minhas intenções estão claras agora pra você. Mas o convite só será feito oficialmente em outro momento. Por enquanto eu gostaria que você já fosse refletindo sobre a ideia de ser parte do grupo. Como eu disse, é importante que você tenha todas as informações cabíveis antes de tomar uma decisão.

- Estou ciente. E honrada. E aguardo ansiosamente a última peça do quebra cabeças, JOSHUA.

JOSHUA se retirou para a casa 1 e Armand e eu permanecemos na clareira. Nossa alegria era imensa. Eu era livre de todos os enganos e fixações que me impediam de ser dele. Ele, por sua vez, podia finalmente me desejar como escrava, sem que isso pudesse ser interpretado como desrespeito ao líder de seu grupo. Ele me levou até o meio da clareira. Era a hora. Eu sabia o que ele esperava de mim. E era também minha vontade que aquele fosse o momento.

Ajoelhei-me aos pés daquele que eu havia elegido como meu Senhor. Um pouco tremula, cruzei os braços estendidos e baixei o olhar.

- Diga. Diga o que eu quero ouvir – ele ordenou.

Sorri. Eu precisava dessa confirmação. Ele me deu segurança para continuar. Minha voz demorou a sair, mas cada palavra foi pronunciada com convicção.





- Eu, conhecida como scarlet, me submeto aqui, em tudo, a ele, conhecido como Armand, para ser sua escrava, sua menina, um artigo de sua propriedade, para que ele faça comigo o que bem desejar.

Não havia coleira ali. Ele riu ao constatar o fato. Mas isso era muito pouco para impedir que tudo fosse consumado. Armand rasgou um pedaço de sua camisa e a amarrou no meu pescoço.

Estávamos achando o nosso jeito. A minha coleira era leve. Nós gostávamos dessa leveza, do riso, da sensação de que tudo ia além da escravidão. Eu era dele. Eu faria tudo por ele. É verdade que, muitas vezes, relutantemente. Mas ele sabia muito bem o que o esperava. E era, sem duvida, apto para lidar com uma escrava como eu.

- Sobre a coleira improvisada, é menos do que você merece. Mas você é uma escrava. Vai ter que compreender – ele riu.

- Sua escrava – completei.

- Sim. Minha! – ele disse, com orgulho.

Voltamos para a casa seis e tivemos uma tarde simplesmente fantástica.

Eu ainda estava nua na cama de Armand quando o telefone tocou. Ele atendeu prontamente:

-Sim. Druída? Quanto tempo!

Ele ajeitou-se na cama como quem leva um susto.

- Ah, sim. Sim, ela está aqui. Mas é importante que você entenda... Ela é minha agora. Isso não é uma aventura nem qualquer tipo de desrespeito. Tudo foi acontecendo aos poucos mas ... Não... Definitivamente não é isso.

Armand tentava se explicar, mas ficava a cada instante mais nervoso e apreensivo.

- Olha, eu entendo, mas isso não te dá o direito de falar assim comigo. É melhor você baixar o tom.

Era obvio que eu era pivô dessa discussão. Armand ouviu algo que o irritou a ponto de bater o telefone no gancho.

- Que aconteceu, Armand?

- O Druída. Ele não aprova o que a gente tem. Detestou a ideia de você ser minha escrava.

- E quem é ele pra aprovar ou desaprovar qualquer coisa por aqui? Volta pra cama comigo... Mostra pra ele quem manda em mim...

Armand desvinvulou-se de mim com um movimento brusco. Eu me assustei.

- Você não entende... E eu não posso explicar, mas o Druída tem um certo poder de decisão sim.

Armand se vestiu rapidamente.

- Onde você vai?

- Falar com o JOSHUA.

- Eu vou com você.

- Não. Me espere aqui.

- Armand, eu estou indo com você. Eu tenho direito de saber o que está acontecendo.

O olhar dele mudou em menos de um segundo.

- Você tem o que?

- Direito – eu repeti, incerta.

- Você tem o direito de me obedecer.

Joguei o travesseiro em cima do rosto. Era a primeira vez que eu realmente sentia o peso da coleira.

Esperei que Armand entrasse pela porta da casa um e peguei o telefone. Não foi difícil achar a lista dos últimos números que haviam discado para ele. O telefone tocou na casa do Druída. Eu o ensinaria a nunca mais tentar decidir o que aconteceria ou não na minha vida.

- Hello?

- Who is it?

- Frank here. Who would you like to speak to?

Eu estava absolutamente perplexa. Sentei-me novamente na cama, tremula, perdida, confusa...

- Pai? Foi você que ligou pro Armand? Você é o Druída?

 
(continua...)

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SETE - Parte 7 - O meio


O mês de julho terminou silencioso. Eu voltei naquela mesma madrugada, para a minha casa. Não esperei por ordens ou despedidas. Apenas peguei meus poucos pertences e as chaves de meu carro. JOSHUA me abraçou enquanto as entregava para mim, pessoalmente.

- Armand está preocupado com você. Ele me pediu pra te entregar isso caso você fosse embora.

JOSHUA passou um pequeno bilhete para as minhas mãos.

- Obrigada – falei, e guardei o bilhete na bolsa.

- O que você quer, menina?

- Eu não sei – respondi, honestamente.

- Desistiu de ser minha?

- Sim, Senhor.

- E por que?

- Porque o Senhor tinha razão sobre mim. Eu não sou uma submissa pura. Tem algo em mim que vai além. Eu falhei vergonhosamente no teu teste.

- E quem disse que você falhou? Você fez o que eu achei que faria, a princípio. Confesso que no meio do caminho eu tive minhas dúvidas. Achei que você pudesse não ser tão complexa quanto eu havia imaginado no começo.

Ele riu.

- Teria sido bom, sabe? Se eu estivesse errado sobre você, teria sido bom te ter na minha coleira. Mas da forma como as coisas se mostram, se eu te aceitasse como minha, em poucos meses você estaria frustrada e começaria a falhar comigo, me frustrando também. Você levaria algum tempo pra se dar conta de que eu não sou o que você precisa. É normal as pessoas se perderem em meio a tantos papeis. E quando elas entram em relacionamentos no BDSM sem saber exatamente quem são, nunca termina bem. Eu tenho orgulho de quem você é. Uma pena que você ainda não saiba.

- Não está decepcionado comigo?

- De forma nenhuma, criança. Você é uma pessoa incrível.

Sorri, confusa.

- Eu entendo que você queira ir. Talvez você precise disso agora. Mas as portas estão abertas. Fique, se quiser, e se descubra aqui.

Eu me afastei.

- Eu não posso. Logicamente eu te entendo. E não tem nada do que eu possa formalmente te acusar, mas...

- Continue.

- Dentro de mim... Eu sinto algo... Eu sinto raiva e dor.

- É natural. Mas saiba que aqui você tem amigos com quem pode contar. E saiba também que eu me sinto um tanto responsável por você. Não se surpreenda se eu achar uma forma de te proteger, mesmo que a distância. É a minha natureza.

Era verdade. Eu sabia. E me sentia honrada.

Cheguei em casa. Tomei um longo banho. Liguei a televisão. Já era dia. Mas não fazia diferença pra mim. Dormi o dia todo, e a noite inteira também. Era como se meu corpo precisasse disso.

Nos dias que se seguiram, meu telefone raramente tocava. Meus pensamentos me deram uma trégua. Eu apenas existia, jogada no meu quarto, andando pela sala como se procurasse o meu lugar.

Com o tempo, me dei conta de que minha casa não mais me refletia. Tony havia decorado seu ambiente de forma brilhante e tão contestadora quanto sua personalidade. JOSHUA tinha poucos móveis, mas tudo que era dele refletia seu bom gosto incontestável. Armand tinha espelhos vaidosos como ele espalhados por todo o ambiente. Quem era eu? O que eu devia ter? Minha casa dizia muito pouco sobre mim.

Em agosto tranquei minha matrícula na faculdade de Direito e fui estudar música. Comprei um piano. Fui aos poucos, assumindo as rédeas de minha vida, antes sempre tão jogadas ao acaso. Fiz amigos. Frequentei festas. De alguma forma tudo o que passei havia me ensinado muito. Consegui um emprego compondo pequenos arranjos musicais para peças de teatro. Havia um mundo comum, seguro e completo em suas terríveis rotinas tão temidas por mim, que foi, ironicamente, o que me acolheu quando meus sonhos se desfizeram. E eu, aos poucos, parecia encontrar o meu lugar, de pessoa comum, nesse mundo preto e branco.

Mas a verdade é que havia noites em que eu me deitava e lembrava do galpão. Eu sonhava com as celas, com a dor, com as marcas, com o cheiro do couro e o barulho dos chicotes. Mais de uma vez, cortei minha própria pele, e deixei o sangue sair de mim como se ele pudesse levar com ele o meu desejo de ser usada com sadismo. Não era a mesma coisa. Apenas atenuava a falta que eu sentia. Marcada pelo meu próprio punhal, eu ainda dormia insatisfeita.

Eu me lembrava de tudo e todos que conheci naquele galpão. Mas a imagem de Armand era a mais presente em mim. E eu nem sabia se ele sentia culpa por ter brincado comigo daquela forma. Por muito tempo não abri o bilhete que ele me mandou através do JOSHUA. Eu tinha medo que suas palavras atenuassem minha raiva. E a raiva que eu sentia, era tudo que havia me restado. Era também uma estratégia minha pra fugir da tristeza, da mágoa, e do luto de um sentimento abortado antes que pudesse sequer ter se instalado em mim, em sua plenitude. Armand havia me roubado isso. Eu jamais saberia por que caminhos esse sentimento me levaria. Mas isso não importava! O que ele havia feito era errado. Ou pelo menos, havia sido feito para a garota errada!

Quando o desejo que me perturbava se tornou maior do que eu pude aguentar, pus uma roupa preta, provocante, e fui sozinha a uma das festas fetichistas do meio BDSM. Constatei que havia vida fora do galpão. Nem tudo acontecia mediante a aprovação de JOSHUA. Era difícil, porem, para quem havia aprendido tudo o que sabia dentro de uma estrutura tão organizada, compreender e aceitar tanta distorção do BDSM. Cenas de agulha em meio ao barulho e no escuro de uma pista de dança, escravas dando ordens a seus Donos, tendo crises publicas de ciúmes e possessividade, câmeras de TV filmando os rostos de quem por alí passava, piadas sendo feitas por curiosos que nem conheciam o sentido da palavra fetiche... Mas tinha ouro também, no meio de tanto falsas jóias. E eu, como o JOSHUA, também tinha notável habilidade para separar o joio do trigo. Sentei-me à mesa com as pessoas mais interessantes que por ali se encontravam.

Uma delas era uma Senhora de cabelos claros e curtos. Aparentava ter entre 45 e 50 anos de idade. Vestia-se em um impecável tailleur preto e belíssimos saltos. Seus comentários eram extremamente bem pensados e sempre acrescentavam uma visão experiente e sóbria à conversa. Minha admiração por ela foi imediata. Fiz perguntas e mais perguntas sobre BDSM, que ela pacientemente respondeu, com a devoção de quem ama o tema. Pessoas sentavam-se e deixavam a mesa, mas eu e Domme Clara permanecíamos, entretidas em uma das melhores conversas que já tive sobre dominação, até que ficamos sozinhas por alguns instantes.

- Como é seu nick, menina?

- Lady Scarlet – respondi, orgulhosa.

-Ah... Switcher?

- Não! – quase gritei - Sou Dominadora.

Domme Clara riu.

- Desculpe. É que vejo claramente essa necessidade de ser moldada em você. Não esperava por um “Lady” antes do seu nome.

Fiquei extremamente irritada.

- Pois saiba que quando eu era apenas scarlet, todo mundo me dizia o contrário.

- Todo mundo, quem?

- Todo mundo que importava – respondi.

- Scarlet, digo, Lady Scarlet, meu bem, você já mencionou o quanto detesta ser testada. Mas me permita testar-te de uma forma que eu prometo que você ira gostar?

Olhei desconfiada. Ela continuou.

- Veja, este a meus pés é o trovador, meu escravo. Você passou boa parte da noite dizendo o quanto é difícil ficar sem o SM. Pois bem, pegue a coleira dele em suas mãos. Você pode usá-lo à vontade sob a minha supervisão.

Eu sabia que aquela era uma grande honra. Eu deveria ter ficado contente, mas não fiquei.

- Bem, Domme Clara, eu...

- Quieta garota! Não terminei minha oferta!

- Sim, Senhora – respondi, sem perceber.

Ela continuou:

- Ou... Veja esse chicote em minhas mãos. Tem 3 metros. Eu andei treinando minhas habilidades apagando velas. O Trovador infelizmente não tem resistência para esse tipo de dor. Se você preferir exercitar seu outro lado, Lady Scarlet, o que eu tenho pra te oferecer é uma longa cena com esse chicote. Até o limite do que você possa suportar.

Eu não conseguia parar de sorrir. Domme Clara aceitou o sorriso como resposta. Tirou uma coleira de sua bolsa e a pôs em meu pescoço.

- Não se preocupe. Essa não quer dizer nada. Apenas que você me servirá esta noite. Agora, venha comigo. Vamos por ordem nessa festa maluca.

Ela caminhou e eu a segui.

- Não, não, não, não, Lady. Assim não. De quatro!

Eu ri nervosamente. Achei que ela estivesse brincando. Mas não estava. Eu pus os joelhos e as mãos no chão e a segui até o outro lado da boate.

Domme Clara falou com algumas pessoas. A luz do palco foi imediatamente acesa. A música eletrônica foi trocada por algo mais apropriado. E alí, diante de centenas de olhares, senti a dor de cada golpe do chicote incessante daquela Sádica maravilhosa. Era um momento mágico. Quase instantaneamente, ela trouxe a tona a masoquista quase esquecida em mim. E essa faceta minha voltou bem mais segura, mais ousada, bem mais consciente de seu próprio poder. O masoquista é, de uma certa maneira, glorioso também.

Foi então que eu novamente senti o seu olhar em mim. Armand, entre os presentes, observava minha cena. Depois de um tempo eu pude localiza-lo. Ele não parecia contente. Isso intensificou enormemente o meu prazer. Cada gemido, agora, tinha ganhado um novo sentido.

Foi atingida por 100 golpes do novo instrumento de tortura de Domme Clara. Ela sorria. Era uma cena que seria lembrada por muito tempo. No final, pessoas que eu nem mesmo conhecia se aproximavam pra me dar os parabéns. Eu devia muito a ela, mas via-se claramente em seu olhar que ela também devia muito a mim. Um Sádico precisa do masoquista capaz de dar asas aos seus desejos, trazendo-lhe não apenas o principal, que é o prazer de exercer o sadismo, mas também o reconhecimento, que para um TOP, frequentemente é parte considerável do prazer total do BDSM.

Fui uma das últimas pessoas a ir embora. Domme Clara me apresentou para mais gente do que me era possível registrar. Trocamos telefone. Aquela noite nascia uma amizade com toques de parceria, e eu conheci o SM puro, sem pretensão de pertencimentos, sem desejos que vão além. Eu havia sido dela em cena. E nada mais que isso. É verdade que eu contei com seus conselhos durante um bom tempo, mas a responsabilidade dela sobre mim também terminava ali. Era um jogo possível e agradável e que, apesar de ser pouco pra mim, naquele momento, servia-me perfeitamente.

Na saída, Armand se aproximou.

- Scarlet, espera, quero falar com você.

- É Lady Scarlet. E eu não quero falar com você.

- JOSHUA te entregou meu bilhete? Você chegou a ler?

-Não. Eu rasguei o bilhete assim que o recebi.

Ele pareceu irritado. Mas conteve-se.

- Não podemos começar de novo? – ele tocou meu braço – Prazer, Armand – e sorriu.

- Prazer, Lady Scarlet – eu disse, oferecendo as costas de minhas mãos para que ele a beijasse. Ele apenas sorriu e não tocou minha mão.

- Viu? Não podemos começar de novo. Nós tivemos uma chance e você a jogou fora em nome de um teste bobo. Agora eu não sou mais quem eu fui, Armand. É tarde demais.

- Podemos ao menos ser amigos? – ele perguntou.

Eu sorri.

- Podemos – respondi, já entrando no carro. Saí dalí o mais rápido que pude.

Esse havia sido o primeiro de muitos sábados em que o meu rosto (e boa parte do meu corpo, também) foi visto pelas festas do circuito fetichista da cidade. Com o meu conhecimento, meu masoquismo, e o apoio de algumas pessoas escolhidas a dedo por mim, antes mesmo de trocarmos o primeiro olá, eu em pouco tempo me tornei um dos nomes mais comentados do meio. Eu era admirada. Criei perfis em redes sociais. Eles rapidamente se enchiam de amigos, pretendentes e wannabes. Era como estar em hollywood. Dominadores e Sádicos reconhecidos no meio derramavam diante dos meus ouvidos criticas a qualquer pessoa que, segundo o julgamento deles, tivesse chance de me conquistar. Recebi conselhos diversos. Alguns se ofereciam para me proteger, como se eu fosse uma criança indefesa, sem nenhuma chance de conseguir dizer um não pra quem eu não quisesse. Outros diziam que eu não deveria frequentar o meio para evitar fofocas, como se qualquer comentário maldoso fosse capaz de ferir meus sentimentos a ponto de me impedir de ir onde eu quisesse estar. Algumas coleiras me foram oferecidas. Um Dominador muito respeitado chegou até a oferecer uma “ajuda de custos” para que eu aceitasse o seu domínio. Eu seguia achando tudo muito divertido, porém não me deixava facilmente impressionar. As únicas propostas que eu aceitava, eram para cenas públicas, com os Sádicos sabidamente mais radicais. Isso sim, me era irresistível. A dor era muito mais importante do que as relações mantidas com quem quer que a causasse em mim. E meu exibicionismo era cada vez mais evidente. Eu era um ícone do cenário atual. E todo mundo já havia ouvido histórias sobre mim e sobre as minhas cenas. Homens que eu jamais havia cumprimentado juravam que haviam me atingido com seus chicotes. Eu apenas sorria e os deixava dizer o que quisessem. Eu era parte da fantasia deles. E, desta forma, as minhas supostas aventuras seriam parte das fantasias de Armand.

Era interessante observar a vulnerabilidade em um TOP. Na imaginação de muita gente, TOPs são pessoas avessas a sentimentos intensos. Na verdade, o que em geral não condiz com a personalidade de um TOP é o sentimentalismo em excesso. Porem, esses deuses quase sempre idealizados são mais carnais do que parecem. E se magoam também. E tem também seus dilemas e inseguranças. Isso, de forma nenhuma, os diminui em seu papel. Armand era extremamente sensível, sagaz e introspectivo. Ele analisava à exaustão cada fato. Era tão fácil magoá-lo. E o prazer que isso me causava, era novidade para mim.

- Scarlet, você não acha que está exagerando? – Armand me disse, em uma das festas.

- Não, Senhor – respondi – Estou apenas começando.

- Então seja minha essa noite. Você sabe que nenhuma de suas cenas aqui é comparável ao que podemos fazer juntos.

Armand se aproximou mais do que deveria. E parte de mim só queria fugir... Outra parte, queria se render... E eu não sabia mais qual das duas era mais forte.

O trovador então se colocou entre nós. Eu nunca havia o visto em pé. Era um homem imenso.

- Armand, A Lady Scarlet está sob a proteção da Domme Clara. E, portanto, sob minha proteção!

Armand parecia prestes a explodir em raiva. Mas ele sabia que trovador estava apenas cumprindo seu papel. Essa interrupção me permitiu criar coragem. Segurei a guia da coleira do trovador. Busquei o olhar de Domme Clara. Ela imediatamente compreendeu minhas intenções e acenou positivamente, me dando liberdade de ação, embora torcesse os lábios, demonstrando não achar que o que eu faria era exatamente uma boa idéia. Eu caminhei para o palco, conduzindo o trovador. Armand me olhava com reprovação e balançava a cabeça, descrente do que estava vendo.

Olhei trovador, de cima a baixo

- De quatro! – eu disse, com voz firme, mas sutil.

Ele imediatamente me obedeceu. Fiz com que ele subisse os degraus até o X. Não foi difícil pra mim usar algumas cordas para amarra-lo alí. Eu havia observado aquelas amarrações sendo feitas nos meus punhos por várias vezes. Domme Clara mandou que uma submissa com quem ela conversava me levasse uma mala recheada de chicotes, velas, clamps, e todo o equipamento que ela usava em cena. Nos seios nus da submissa, ela havia me escrito uma mensagem:

Bem-vinda, LADY Scarlet. Use o que quiser. Divirta-se! DC

Eu sorri. Era gostoso sentir o poder que vinha de mim. Algo me mudava. Eu respirava como se me enchesse de mim mesma. Eu caminhava como se tudo à minha volta me pertencesse. Eu não era uma personagem simplesmente. Uma parte de mim, nem sempre visível, assumia o controle do meu corpo e de minhas emoções. E foi essa parte que escolheu a cane de madeira entre milhares de opções, e com ela, e apenas com ela, açoitou por diversas vezes o corpo entregue e delirante de trovador. Ao mero som da cane cortando o ar ao seu redor, ele se contorcia em dor e ansiedade, ora desejando, ora temendo o meu toque cruel e libertador. Eu ria alto quando o acertava e o via tremer. Descobri que eu, quando me vejo perante a submissão, sei fazer dela bom uso. E me torno deliberadamente sádica e impiedosa. Eu me perguntava se não era assim com todo mundo. Talvez todos tenham um lado sádico. Será que desenvolve-lo ou não não depende das circunstancias? Será que ter alguém completamente a seu dispor não possa ser o gatilho para novos desejos e sensações? Eu demorei a aceitar que o que eu sentia não era apenas circunstancial. Eu demorei a entender que eu, assim como JOSHUA, também tinha em mim o raro desejo de dominar, de controlar, de causar dor...

Era tudo muito novo. Eu ainda não sabia como o sadismo era motivado em mim. Tony era um sádico relativamente puro. JOSHUA causava dor para ter controle. Armand era completamente viciado em fazer verter o sangue, em deixar suas marcas, como se ao abrir a pele ele tocasse o intimo da masoquista. Ventríloquo, com a dor que causava, levava as mulheres a um estado de fragilidade emocional no qual ele podia protegê-las. Miss Catsy machucava pra se impor também, de forma mais sutil e quase maternal. Mas era difícil analisar a mim mesma. O fato é que cada gemido de trovador me excitava. Sobretudo quanto o meu olhar e o de Armand se encontravam enquanto eu atingia aquele submisso. Chegou a passar pela minha mente que eu talvez estivesse apenas usando o trovador pra me vingar. Todo o meu sadismo podia ser direcionado apenas a Armand, e estar projetado naquele que me servia. Mas o fato é que eu fui, aos poucos intensificando os golpes. E quando o trovador perdeu o apoio das pernas, já cansadas e fragilizadas pela dor, eu imediatamente cortei as cordas, deixando que ele caísse ao chão. Andei até ficar de frente pra ele. Levantei seu queixo com a cane. Trovador, como um garotinho encolhido, beijou meus pés e disse:

- Senhora! Piedade, Senhora!

Ele me olhou. E nesse olhar, eu soube que eu, enquanto Sádica, era exatamente como Armand. Eu queria deixar minha marca na alma. Eu queria ser lembrada pelo meu poder. Eu queria, mesmo que por um momento, reinar soberana na mente de quem ousasse entregar seu corpo aos meus cruéis cuidados.

Desci do palco. Recebi alguns rápidos cumprimentos. Procurei Armand. Ele não estava mais por perto.

- Lady Scarlet? – disse Domme Clara

- Obrigada – eu disse – Por tudo. Especialmente por ter me mentorado nessa descoberta.

- Me agradeça depois. Agpra vá atrás de Armand.

- Como assim? Por que eu faria isso?

- Por que agora vocês estão quites. Você o fez sofrer. Agora seu orgulho já vai permitir que você lute por ele. E acredite, você vai precisar lutar.

- Lutar? Eu não entendo...

- Hoje você ganhou sua vingança. E perdeu os sentimentos de Armand por você. Não sei se ainda pode recuperá-los, mas se quiser tentar, é bom se apressar.

Eu ri nervosamente

- Sentimentos? Do que você está falando? – perguntei, confusa

- Ah, você não chegou a ler o bilhete? Uma pena!

Abri minha bolsa. Em uma minúscula repartição, peguei o pequeno pedaço de papel. Hesitei. Mas eu sabia que era hora. Desdobrei o bilhete de Armand e o li:

“Scarlet, eu fiz o que eu tinha que fazer. Mas eu não menti. Tudo que eu te disse é verdade. Eu sinto que você é perfeita pra mim. E eu sei que eu posso te dar o que você mais precisa. Se você puder me perdoar, me procura. Estarei esperando.”

Depois dessas palavras havia apenas o número do celular de Armand.

- Como você sabia do bilhete? – questionei Domme Clara

- Ah, garota, vai dizer que você ainda não sabe quem esteve te mentorando esse tempo todo! Nas festas fetichistas eu sou conhecida como Domme Clara. Em um outro local, bem mais interessante, eu sou quem eu realmente sou: Mistress Vera! E não fui eu quem tomou conta de você por aqui.

- o JOSHUA! – eu disse – Voce é uma dos Sete!

Ela riu.

- Como se o JOSHUA fosse deixar uma pedra preciosa como você abandonada à própria sorte!

- Então você conhece bem o Armand. Me diz, Mistress, é verdade o que ele escreveu? Ele se importa comigo?

- Mais do que você possa imaginar.

Eu a abracei forte ao ponto de deixa-la constrangida. Mistress Vera desamassou sua blusa com as mãos. Mas sorriu com certa timidez.

Eu saí o mais rápido que pude e entrei no carro. Liguei varias vezes para o celular de Armand. Depois da quarta ou quinta tentativa, ele atendeu.

- O que você quer?

- Falar com você. Por favor...

- Pensei que você fosse sair da festa com o sub da Clara...

- Não faz isso. Você sabe que eu não iria...

- Eu não sei de nada. Eu nem sei quem você é.

- Eu também não sei! É tudo novo pra mim. Onde você está?

- Indo pro galpão. Parei no acostamento

- Ok... ok... eu te encontro. Me espera...

Desliguei o telefone. Eu nunca tinha dirigido de forma tão irresponsável. Mas ele não podia estar muito longe, e se ele chegasse ao galpão antes de mim, eu não sabia se ele iria me receber.

Avistei a moto de Armand. Parei no acostamento. Ele entrou no carro.

- Me desculpa – eu disse – Eu estava muito machucada.

Eu não conseguia esconder meu medo de que ele simplesmente partisse.

Armand parecia distante. E frio.

- Certo. Eu posso compreender, scarlet, posso até te desculpar. Mas eu preciso saber quem você é. Você precisa saber quem você é.

Respirei fundo. Era difícil admitir

- Armand, eu sou muitas. Nesse mundo novo, uma Switcher, alguém com desejos e habilidades em várias direções. Eu amo a dor. Causá-la, e sentí-la. Eu amo o poder. Obtê-lo ou estar sob ele. Eu sou scarlet, e Lady Scarlet, e também sou quem eu era antes de conhecer tudo isso. E eu acho que de certa forma você tem todas elas...

- E o que você quer de mim? Eu certamente não vou me submeter a você! – ele disse, firmemente.

- Eu sei... Eu sei... E nem é isso que eu queria.

Armand me olhava de forma impaciente. Eu sabia muito bem o que eu queria. Apenas não sabia como pedir. Para um switcher a submissão não vem sem certa luta interna. Orgulho e desejo estão sempre muito presentes, opondo-se e confundindo. Eu queria ser mais simples. Como nina. Ela era simplesmente uma escrava. E divinamente treinada. Completamente segura e orgulhosa de sua submissão. Ela certamente saberia o que fazer. Sem pensar duas vezes, ela se lançaria aos pés do homem a quem quisesse servir. E de forma direta e graciosa ela se diria dele. Mas pra mim, tudo aquilo parecia difícil demais. Ou fácil demais pra ele. Eu queria ve-lo tomar posse de mim, e não aceitar uma entrega pronta e discreta.

Armand me compreendeu em um olhar. Ele me beijou e nesse beijo era impossível que ele não soubesse o quanto esse momento havia sido desejado. Eu o puxava pra mim, até ser impossível chegar mais perto. Ele moveu os bancos pra trás e se deitou sobre mim. Eu estava assustada. A qualquer momento alguém podia chegar. Eu não sabia que tipo de problemas poderíamos ter. Tentei fazer ele parar, mas ele grudou no meu cabelo, me deixando imóvel com seu peso e sua força.

- Armand, aqui não...

- Você é minha? – ele perguntou.

- Sou. Sou sua. – respondi, sem hesitar.

- Então fica quieta, enquanto eu tomo posse do que é meu.

E no carro parado no meio da estrada, no escuro da noite, mesmo assombrada por todos os meus maiores medos, eu sei que eu faria qualquer coisa que ele quisesse, porque ele saberia me levar a isso. Não havia um limite sequer. Todos eles ele havia conquistado com o estranho efeito que ele tinha em mim. Eu era só desejo e entrega. E ele tirava de mim a dor e o prazer com a mesma facilidade. Eu o sentia me penetrando com violência, e movia meu corpo contra o dele. Sentia a adrenalina correndo em mim. Meu gozo foi incontrolável quando ele disse:

- Minha scarlet! Você me pertence... Eu faço o que eu quiser com você!


(continua...)





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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

SETE - Parte 6 - Armand

- Scarlet, você está bem?
Abri os olhos.
- Armand?
- Não, scarlet. Sou eu. A naya. Você está bem?
- Que horas são?
- Quatro da tarde.
A luz machucava meus olhos. Eles pesavam. Era difícil permanecer acordada.
- Eu preciso voltar pra o JOSHUA.
- JOSHUA não está mais aqui. Mas logo deve retornar. Ele mandou que eu viesse te dar um banho. Miss Catsy me deixou sob os cuidados dele.
- Me dar um banho? Naya, onde a gente está?
Percebi que eu estava deitada em uma cama com um revestimento impermeável. Então compreendi
- Estamos na casa 6 – ela confirmou – Está é a casa do Monsieur Armand.
Levantei com dificuldade. Dois grandes espelhos cobriam totalmente duas das paredes do quarto de Armand. O lençol deslizou pelo meu corpo. Naya olhou-me, totalmente perplexa. Andei até o espelho mais próximo. Não havia uma parte de mim que não tivesse sido marcada pelo punhal de Armand. Estendi meus braços. Toquei minha pele. Algumas marcas eram de cortes que ele havia aberto em mim. Outras eram apenas de arranhões, ainda bem visíveis.
-Scarlet. Fica calma. São cortes superficiais. As marcas vão sair em duas ou três semanas.
- Que pena! – respondi, ainda me olhando no espelho – são lindas.
- Você é realmente estranha, scarlet – ela sorriu – Vem, hoje eu que vou cuidar de você.
Naya encheu a banheira e entrou nela comigo.
- Noite longa – ela comentou. Rimos juntas.
- Como foi? – perguntei.
- Você quer mesmo saber?
- Quero, eu acho...
- Ah... Horrível!
- Horrível?
- Eu não estou falando mal do seu Senhor, scarlet. É que eu não sinto prazer algum em estar com um homem. Eu não sou como você. E nada vai me mudar. Está aliviada em saber disso? – ela provocou.
- Não sei. Acho que não. O que é estranho. Eu deveria ter ficado. Não acha?
- Talvez. Cada uma de nós sente essas coisas de forma diferente. Submeter-se nem sempre é o mesmo que amar.
Eu nunca havia achado que amor e ciúmes precisavam estar conectados. Mas era estranho eu não ter sentido nada. É verdade que fiquei humilhada, ferida em meu orgulho, por não ter conseguido o maior preço no leilão. Mas tê-lo visto ali, em cena, expondo todo o prazer que sentia ao toca-la e usa-la da forma que ele desejou, não me fez sentir mal como eu imaginei que me sentiria. E isso me confundiu.
Amor e submissão são dois sentimentos muito fortes. Mas eu não sabia dizer qual dos dois era maior ou mais nobre. E nem sabia quanto de cada um deles havia no outro. Pode-se submeter-se a quem não se ama de nenhuma maneira? Pode-se amar uma pessoa completamente sem desenvolver nenhum tipo de submissão por ela, ainda que inconscientemente? E o que eu sentia pelo JOSHUA afinal? O que era aquele sentimento que me permitia impunemente vê-lo com outra pessoa, mas que me enlouquecia se eu sequer imaginasse a possibilidade de tê-lo desagradado?
Naya tocava um de meus cortes.
- Gosto da sua pele...
Eu não consegui sorrir.
- No que você está pensando, scarlet. Onde você está?
- Aqui... Como eu vim parar aqui, naya? Eu não me lembro de ter subido. Foi o Armand que...
- Ele te trouxe pra cá ainda em subspace. Você apagou completamente.
- Naya, eu não consigo lembrar...
- Eu não sei o que ele fez com você. Eu não estava aqui. Mas se você não se lembra, não deve ter sido nada memorável – naya sorriu maliciosamente, e piscou pra mim.
- Não. Nós não... Ele não fez isso, naya. Eu sei.
-Como você pode ter tanta certeza, se estava apagada? – ela perguntou.
- Se ele tivesse feito, eu saberia.
- Mas como você...
- Eu simplesmente sei – interrompi.
Naya secou meu corpo e voltamos para o quarto. Enquanto eu secava meus cabelos, ela me contou o que havia se passado, enquanto eu dormia.
- Armand não te devolveu no horário combinado. É bom você saber que o JOSHUA não está contente com isso.
- Mas eu não tive culpa.
- Não. Não teve. Não se preocupe demais com isso. Agora vá. Logo o JOSHUA estará de volta. Vou arrumar as coisas aqui na casa seis.
Eu fui em direção à escada.
- Não – disse naya – Não vá para a masmorra. Você deve espera-lo na casa um.
Sorri. Eu conhecia o JOSHUA o suficiente pra saber que se ele queria me ver em sua casa, ele provavelmente tinha algo importante a me dizer. Até então, eu havia feito tudo certo. Eu fui uma escrava capaz de ir muito longe por ele. Mesmo sem o conforto de um nome no meu pescoço. Mesmo sem qualquer evidencia direta de sua apreciação por mim, eu o segui. Tudo que eu fazia havia sido por ele. E os meus pensamentos, todos, se voltavam ao meu objetivo de provar-me sua. Meus momentos haviam sido todos dele. Desde o tormento de ser sido rejeitada e entregue ao Sadismo emocional do Senhor Ventríloquo, de passar meus dias em uma cela fria, de ter minha imagem exposta a pessoas desconhecidas, de trabalhar, servir, ser torturada até mesmo pelo meu próprio desejo, que ele se negava a satisfazer, até ser vendida ao Monsieur Armand e marcada por ele, tudo eu havia suportado, prontamente, como um ser que não mais se pertence. Era possível que houvesse chegado a hora de eu receber a minha recompensa.
Caminhei pelo terreno e entrei na casa um, nua e descalça.
Ele bebia um suco, sentado em sua poltrona.
Ajoelhei-me a seus pés.
- Sente-se – ele disse, apontando para o sofá.
Obedeci.
JOSHUA me entregou algumas caixas. Em uma delas havia um belíssimo corset, todo bordado em preto e vermelho. Na outra, um vestido curto, mas de muito bom gosto e incriticável qualidade. Também havia uma caixa com o salto mais alto que eu já havia tocado. E meias 7/8. E um sobretudo que devia sozinho custar mais do que todas as peças de roupa que eu tinha.
- Vista-se – ele ordenou – as roupas são suas.
Novamente obedeci. O glamour daquelas vestimentas e a forma como elas exaltavam tudo em mim, me fez saber que ele as havia escolhido, peça a peça, especificamente para mim. Olhei-me no espelho. Ele sorria para o meu encantamento com tudo aquilo, para a minha inocência, tão feminina, que examinava a maciez do toque de cada tecido. Ajeitei meus cabelos. E ao terminar, sentei-me novamente no sofá.
- Vamos sair essa noite, Senhor?
- Não – ele respondeu – Você vai. Tem algo que eu preciso que você faça pra mim. Essa noite haverá uma festa fetichista. Eu preciso de uma presença feminina. Alguém que nunca tenha sido vista antes.
Meu sorriso sumiu de meu rosto.
- Quer que eu vá espionar a festa para o Senhor?
- Não.
JOSHUA levantou-se de sua poltrona e sentou-se ao meu lado. Então pegou uma fotografia em seu bolso e me mostrou.
- Este é um amigo meu. Ele será apresentado a ti como Black Eagle. Por anos eu tenho acompanhado seu discurso, suas cenas públicas e sua conduta que tem me parecido impecável.
- Mas... – completei, prevendo algum porém.
JOSHUA sorriu
- Sim, scarlet. Tem um “mas”. Existem rumores de que ele comete alguns abusos com algumas submissas. Obviamente ele não o faria com as que tem muitos contatos, ou que são bem articuladas e detém conhecimento sobre as práticas. As pessoas que o acusaram de quebra de consensualidade foram duas submissas iniciantes. E depois de passarem pela experiência que alegaram ter sido abusiva, retiraram-se do meio. Ele alega que foi difamado por ter rejeitado aquelas mulheres. Eu não tenho como verificar a veracidade das informações com elas.
Eu não conseguia olhar para ele.
- O Senhor quer que eu corra riscos pra te provar que um Dominador serve para o seu grupo?
- Scarlet, não vai acontecer nenhum mal a você. Pode confiar em mim.
Pensei por alguns segundos. Era difícil confiar.
- Mesmo que eu não considerasse esse seu pedido uma falta de preocupação imensa com a minha integridade física, eu não poderia garantir que eu conseguiria seduzi-lo. E se conseguisse, ele poderia achar que eu não sou a pessoa certa pra ele tratar sem preocupação.
JOSHUA riu. Levantou-se e me levou até o espelho. Arrancou meu sobretudo com um movimento brusco.
- Olha pra você, criança. Veja essas marcas em seus braços, em suas costas, em suas coxas... Me diga se você parece alguém que tem muito cuidado com sua integridade física... Black Eagle, assim que avistar esses cortes, vai te rotular como exatamente o tipo de garota com quem ele pode fazer o que quiser, impunemente. Isso, lógico, caso ele seja exatamente como foi pintado por aquelas garotas.
Eu chorei de raiva e de decepção. Mas eu também chorei por me sentir culpada, mesmo sabendo que na verdade eu não tinha culpa de nada.
- Foi por isso, não foi? Foi por isso que me entregou para o Armand... Pelas marcas... Elas são bem oportunas agora.
- O Armand te comprou. Eu não te entreguei pra ninguém em especifico. Te entreguei pra quem pagasse mais por uma noite com você.
- Mas o Senhor sabia. Sabia que seria ele. Sabia o que ele iria fazer. Tudo que o Senhor faz é manipular as pessoas a sua volta. Tudo é calculado por aqui. Vocês não são sete. São um só. E eu não sei mais se eu gosto de quem vocês são.
- É seu direito, scarlet. Você pode optar por pensar assim. Tudo que você fez até agora foi pelo teu sonho. Entenda, tudo que eu faço é pelo meu sonho. E ele é nobre, você acredite nele ou não. Você pode ir embora se quiser. Seu carro continua estacionado no mesmo lugar. As portas estão abertas pra você. Eu não prendo ninguém que não queira ser presa. Eu não firo ninguém que não precise ser ferida. E é por isso que eu não deixaria entrar aqui alguém que já foi acusado de agir contra a consensualidade e a segurança de mulheres que eu nem mesmo conheço. Não sem antes testar sua forma de agir. Você pode me ajudar nisso, ou não. Eu o farei do mesmo jeito. Nem que eu seja julgado por você. Eu não perverto meus valores. E agora, o que me importa é garantir a segurança de qualquer mulher que sirva a um dos Sete. Se você se for, eu entenderei. Mas seria uma pena. Você chegou tão perto...
- Tão perto de que?
- Tão perto de ser minha!
Sequei minhas lágrimas.
- Entendo... E depois, se eu fizer isso...
- Se você se sair bem nessa tarefa, você terá me provado seu valor como submissa. E eu não deixo nada de valor escapar pelas minhas mãos.
- Está me dizendo que...
- Se tudo sair de acordo, você será minha.
Se por um lado eu via nobreza em seus propósitos, por outro eu via apenas o descaso com a minha segurança. A rejeição que eu havia sofrido até então me cegava e eu era capaz de odia-lo por alguns instantes.
- Sim, Senhor. Eu irei.
Ele sorriu e completou
- Mas... Ainda tem algo que você quer me dizer...
Eu o olhei nos olhos. E me surpreendi por não ter sido nem um pouco tentada a baixar o olhar. E foi o turbilhão de sentimentos confusos que passavam por mim que me deu forças pra dizer:
- Eu não te amo, JOSHUA.
Ele passou as mãos, gentilmente, pelos meus cabelos.
- Eu sei, scarlet. E estou contente que agora você também saiba. Agora, me obedeça!
****
Tony me aguardava no carro, já do lado de fora do portão, quando eu saí. Sentei-me ao seu lado.
- Hey, princesinha. Pronta pra missão?
- Desde que você não me faça ir até lá ouvindo seus terríveis CDs de rock experimental, estou pronta.
Ele riu. E ligou o rádio.
Olhei para trás. Naya e becky estavam indo também.
- A nina não vem? – perguntei.
Becky riu:
- E o que a nina iria fazer lá? Chorar se algo desse errado?
Naya estava visivelmente desconfortável. Perguntei se ela estava bem.
- Tony – disse naya – isso não está fazendo sentido. Essa tarefa não é o que parece. Se fosse, não precisariam de mim pra nada.
- Naya, não pense. Hoje você não está aqui para pensar.
Naya tentou retrucar, mas Tony aumentou o som. E foi o caminho todo comentando sobre as músicas comigo. Tony sempre conseguia me acalmar. Ele sabia que era preciso. Eu não sou exatamente a pessoa mais eloquente desse mundo. Eu não estava acostumada a seduzir. Já era bastante difícil pra mim manter uma conversa fluindo em qualquer ocasião social. Eu teria que entrar em um ambiente hostil, ganhar a atenção e o interesse de Black Eagle, e conseguir que ele quisesse fazer uma sessão comigo. Era pedir demais para alguém como eu.
O evento era em uma casa noturna, no centro da cidade. Logo na entrada, eu já via todo o tipo de gente. Drag Queens dividiam o espaço com casais bem vestidos e de porte elegante. Meninas de coleira diziam não para garotos de camiseta preta e jeans, que pediam para beijar seus pés. Um moço loiro, simpático, que segurava uma garota bem jovem pela guia, sorriu para a becky. Sua escrava fechou o rosto e o puxou para conversar. Os dois brigavam na porta quando eu entrei.
O ambiente era escuro, mas mesmo assim, alguns exibicionistas perfuravam seus subs com agulhas. Em alguns cantos, casais ensaiavam pequenas cenas, simultaneamente. As pessoas na pista de dança moviam-se ao som de música eletrônica enquanto um garoto de uns vinte e poucos anos era tatuado. Os convidados exibiam muito couro, vinil e látex. Era comum ver pessoas mascaradas ou até mesmo nuas.
Localizei Black Eagle em poucos minutos. Ele estava no bar, conversando com um casal, aparentemente iniciante. Tony fez sinal para que eu aguardasse com as meninas. Ele iria se aproximar primeiro, pois Tony e Eagle já se conheciam. Vi quando os dois se cumprimentaram. Becky me puxou pra dançar. Achei que seria melhor do que ficar parada, no meio daquela festa inusitada. Enquanto becky parecia honestamente se divertir, eu me movia apenas o necessário. Meu coração acelerava. Eu estava tensa demais.
Então naya apareceu na pista e me puxou pra perto dela. Pos suas coxas entre as minhas, segurando-me pela cintura, como se ela quisesse apenas dançar de forma sensual. Na verdade ela só precisava me afastar da becky. Tinha algo que ela queria me dizer:
- Scarlet, me escuta. O Armand está aqui. Isso não faz sentido. No dia da festa, eu ouvi quando ele disse para o JOSHUA que hoje estaria fora da cidade. Eu estava servindo bebidas para os dois. Tem alguma coisa muito errada acontecendo. Eu ainda não sei o que é. Mas eu vou descobrir. Toma cuidado. Não faz nenhuma besteira.
- Onde está o Armand? Onde você o viu?
- Olha à sua esquerda – ela disse.
Virei-me discretamente. Armand estava encostado na parede, olhando diretamente pra mim. E tinha algo no seu olhar que me chamava. Eu não sabia o que fazer.
Armand se aproximou e me tomou de naya, sem hesitação. Eu senti suas mãos nas minhas costas, me puxando pra perto. Eu ouvi sua voz no meu ouvido, quase sussurrando:
- Você gostou das marcas que eu deixei em você?
- Sim, Senhor. São lindas. Obrigada.
Naya me olhava com reprovação.
- Scarlet, quando estávamos juntos, eu senti algo. Eu preciso saber se você sentiu também.
Eu sabia do que ele estava falando, mas achei melhor fingir que não.
- O que o Senhor sentiu? – perguntei
- Eu senti... Eu senti que você é perfeita pra mim.
- Senhor, eu não sei. Eu também senti alguma coisa. Mas eu estou confusa...
- Scarlet, eu sei o que ele quer que você faça. Mas o Eagle é um cara perigoso. Mais do que você pode imaginar. Eu não quero você com ele em um quarto. Isso é loucura.
- Mas o JOSHUA falou que eu estaria segura. Eu preciso confiar.
- o JOSHUA... Já pensou que talvez o JOSHUA não seja o que parece ser? Você vai realmente confiar nele?
- Sim, Senhor... Eu acho... Eu não sei... Tudo isso é tão estranho...
- Não vá. Não faça isso – ele disse.
- Senhor, eu preciso – eu respondi.
- Scarlet, Eu acabei de jogar um celular no seu bolso. Se alguma coisa sair do seu controle, tente discar para o ultimo número da lista. Você sabe fazer isso?
- Sim, Senhor.
- ótimo. Eu receberei a ligação imediatamente.
Armand se afastou de mim, me deixando sozinha na pista de dança. As meninas já estavam ao lado do Tony, e acenavam para mim.
Cada passo que dei foi contra os meus desejos. Cada frase que disse, tentando conseguir a atenção de Black Eagle, me feria. O meu sorriso era vazio. E enquanto minhas mãos tocavam o braço daquele Senhor desconhecido, meus olhos rodeavam o lugar à procura dos olhos de Armand.
Black Eagle não me deu muito trabalho. Foi fácil introduzir um assunto qualquer e deixar que ele falasse, sozinho, contando suas histórias fantasiosas sobre tudo o que supostamente ele já havia feito com uma mulher. Quando Tony percebeu que a conversa fluía, afastou-se com as meninas. Logo erámos apenas nós dois. E não demorou até que ele me convidasse para conhecer sua masmorra, que, segundo ele, ficava há apenas alguns quarteirões dali.
No carro, Black Eagle parecia um pouco menos gentil e menos paciente. Mais de uma vez ele tocou minha coxa. Uma das vezes, retirou com a unha a casquinha de cicatrização de um dos cortes e disse:
- Você realmente deixou esse cara acabar com você, não foi?
Eu tive medo. Ele tornava-se cada vez mais desagradável. E parecia gostar da ideia de estar genuinamente me repelindo.
Eu demorei para perceber que estávamos sendo seguidos. Uma moto se aproximava, depois dava espaço, sumia pra voltar um pouco depois. Era Armand. Eu podia senti-lo perto.
Black Eagle continuava dirigindo para locais estranhos e afastados.
- Estamos muito longe?
- Longe de onde?
- Da sua masmorra, Senhor.
Black Eagle riu nervosamente.
- E pra que uma masmorra? O que eu quero fazer com você eu posso fazer em qualquer lugar.
- Encantador... Mas não foi o que combinamos, Senhor. Por favor, pare o carro – enquanto falava, pus minha mão no bolso e tocando o celular com discrição, fiz como Armand tinha me instruído.
Black Eagle continuou dirigindo. E deslizava uma das mãos nas minhas pernas. Me esquivei.
- Eu não quero – disse. Eu não quero e eu não estou brincando. Você mentiu sobre a masmorra e sobre quem você é. Eu reconheço uma farsa quando eu vejo uma, e você não passa de uma farsa. Não me toca!
Ele então me deu um tapa com as costas da mão, quase perdendo o controle do carro. Eu senti gosto de sangue em minha boca.
A moto novamente se aproximava, e nos ultrapassou e foi diminuindo a velocidade, fechando o carro, e obrigando Black Eagle a fugir para o acostamento e frear bruscamente.
Assim que paramos, abri a porta. Black Eagle ainda tentou me impedir de sair, mas viu que Armand descera da moto e caminhava em nossa direção.
Armand o tirou do carro, puxando-o pela camisa. E o que ele fez com Black Eagle, eu prometi que jamais contaria. Mas eu garanto que as marcas que Armand deixou nele, levaram bem mais tempo pra sair do que as marcas que ele havia deixado em mim. Armand tomado pela raiva, era invencível. Ele ganhava uma força pouco comum. Eu tive que fechar os olhos.
Depois disso, Armand me abraçou.
- Tá tudo bem agora, ok? Você vai ficar bem.
Eu tremia muito. Ele pôs seu casaco em minhas costas. Depois levantou meu queixo e me puxou novamente pra perto. Eu não pensei. Eu apenas o beijei com uma intensidade única. E o puxei pra mim sem nenhum pudor ou controle. Por alguns segundos eu me sentia livre. E eu seguia os meus próprios desejos. Eu não era escrava de nada. Quem o beijava nem mesmo se chamava scarlet. Quem o beijava ainda não tinha nome. Era essa parte de mim, que eu nunca havia conhecido. Essa nova pessoa que tomava seus desejos nas mãos e os transformava em ações, sem pedir permissão. E nesse momento, tudo o que ela queria era beijá-lo longamente, exatamente como fez.
Outro carro se aproximou. Os faróis incomodaram meus olhos. Demorei a reconhecer Tony e as meninas. Naya desceu do carro e correu a meu encontro.
- Scarlet! Scarlet, você não beijou o Armand, beijou? Me diz que você não o beijou!
Olhei pra ela. Os braços de Armand ainda envolviam meu corpo. Meus lábios ainda estavam marcados pela pressão dos lábios dele. Ela entendeu que eu o havia beijado.
Ela virou-se pra ele, em fúria:
- Vocês encenaram aquela conversa sobre o Senhor estar viajando, não foi?
- Sim, naya. JOSHUA sabia que eu estaria aqui. Na verdade, foi ele quem me pediu para estar aqui.
- Vocês me usaram, não foi? Queriam que eu dissesse pra scarlet que o JOSHUA não sabia de sua presença na festa...
- Sim. Era preciso que ela pensasse que tudo ocorria sem o conhecimento dele.
- Por que? – perguntei – Do que vocês dois estão falando?
Armand explicou:
- Queríamos saber até que ponto iria sua submissão ao JOSHUA. Como eu disse, ele pediu para que eu estivesse aqui. Houve dois motivos para a minha presença nesta festa.
- Que motivos? – perguntei.
- Primeiro, pra te proteger.
Naya derramou uma lágrima. Armand continuou:
- E em segundo lugar, pra te testar. Duas pessoas foram testadas hoje, scarlet. Black Eagle e você. Eu sinto muito. Você não deveria ter me beijado.
(continua...)

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